quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Esta Saudade

 Esta Saudade

Esta saudade és tu... E é toda feita
de ti, dos teus cabelos, dos teus olhos
que permanecem como estrelas vagas:
dos anseios de amor, coagulados.

Esta saudade és tu... É esse teu jeito
de pomba mansa nos meus braços quieta;
é a tua voz tecida de silêncio
nas palavras de amor que ainda sussurram...

Esta saudade são teus seios brancos;
tuas carícias que ainda estão comigo
deixando insones todos os sentidos.

Esta saudade és tu... é a tua falta
viva, em meu corpo, na minha alma, viva,
... enquanto eu morro no meu pensamento.

               



Razões...


Pensarás que é mentira e é no entanto verdade
— mas me afasto de ti, propositadamente,
pelo estranho prazer de sentir que a saudade
ainda torna maior o coração da gente...

Parto! Bem sei que parto sem necessidade!
Quero ver os teus olhos turvos, de repente,
embora não compreenda essa felicidade
que assim te faz sofrer comigo inutilmente!

Quero ouvir-te na hora da despedida
que eu volte bem depressa para a tua vida,
— quero no último beijo um soluço interior...

Que enquanto ficas só, e enquanto vou sozinho,
sabemos que a saudade vai tecendo o ninho
que há de aquecer na volta o nosso eterno amor!

Dedicatória

 Dedicatória


Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta cousa afinal na nossa história...
E este verso - é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...

Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!

Classicismo

 Classicismo

Longínquo descendente dos helenos
pelo espírito claro, a alma panteísta,
— amo a beleza esplêndida de Vênus
com uma alegria singular de artista!

Amo a aventura e o belo, amo a conquista!
Nem receio os traidores e os venenos...
— Trago na alma engastada uma ametista,
— meus olhos de esmeraldas são serenos!

Com os pés na terra tenho o olhar no céu;
a alma, pura e irrequieta como as linfas
soltas no chão; nos lábios, tenho mel...

Meu culto é a liberdade e a vida sã.
E ainda hoje sigo e persigo as ninfas
com a minha flauta mágica de Pã!

Cartas

 Cartas


Vou correndo buscá-las — são tão leves!
mas trazem a minha alma um grande encanto,
— por que as cartas que escreves custam tanto?
— por que demora tanto o que me escreves?

Não deves torturar-me assim, não deves!
— Do teu silêncio muita vez me espanto...
Mando-te longas cartas — e entretanto
como tuas respostas são tão breves!...

Recebes cartas minhas todo dia,
e elas não dizem tudo o que eu queria
mas falam-te de amor... de coisas belas!

Tuas cartas... Mas dou-te o meu perdão,
— que me importa afinal eu ter razão,
se gosto tanto de esperar por elas!

Do livro "Bazar de Ritmos", Editora Vecchi, 6 ª ed. 1963, RJ


Carta Inútil

Tu não mereces o meu sofrimento
ele é grande demais para quem és,
nem devia afinal (triste momento),
— por fraqueza humilhar meu sentimento,
e ajoelhar-me adorando-te aos teus pés...

Passaste tão depressa!... Em minha vida
às vezes penso que nem foste minha!
Como a aragem soprando distraída
acendeste uma brasa adormecida
e deixaste-a queimar-se após, sozinha...

Minha angústia interior é aquela chama
vermelha, consumindo a brasa acesa...
A Vida é assim... bem sei... sofre quem ama,
e, covarde, é o mundo, o que reclama
contra um quinhão de dor e de tristeza!

Ainda guardo a silhueta de teu vulto
e o que ontem me dizias sei de cor,
— por tudo o que mentiste não te insulto,
fiz das lembranças que deixaste um culto
e a vida sem lembranças... ainda é pior...

Quase sempre é melhor o sofrimento
quando ele encerra uma lembrança boa,
que uma vida vazia, o isolamento,
— sem uma voz trazida pelo vento!
— sem um vulto passando na garoa!

Doloroso é voltarmos nosso rosto
e o passado fugir como um caminho
deserto, a essa hora roxa do sol posto,
— sem um riso, uma lágrima um desgosto
a saudade de um beijo ou de um carinho...

Quando o mal terminou, já está curado,
mesmo a sombra da dor ainda conforta...
— bem pior, é não ser ter nunca chorado,
vendo o mundo a passar sem ter passado
e a vida inteira inutilmente morta!

Confesso, sim... que não mereces tanto
não mereces um culto igual ao meu...
Tudo em ti foi tão falso... hoje, me espanto
ao ver que tantas vezes o teu pranto
numa ironia cruel me comoveu...

Mas, não toquemos nisso... Não se deve
falar de um mal que nos maltrata assim,
— nem sempre o que se pensa a gente escreve...
— que o esquecimento seja um véu de neve
descendo suave sobre o nosso fim...

Teu amor foi apenas uma nuance,
desmaio de um segundo nos meus braços,
— é inútil que ainda insista e ainda me canse
a procurar em vão nesse ex-romance
a falsa trajetória de teus passos...

Foste um lírico instante de beleza
a efêmera existência de uma flor!
Uma folha a rolar na correnteza,
um segundo de anseio e de incerteza,
— mentira ingênua que eu chamei de amor!

Gota d'água brilhante ainda em suspenso
num fio... quando o sol quente a encontrou,
— partida que não teve o adeus de um lenço,
história antiga que não tem mais senso,
livro que o vento sem querer fechou...

Foste isso: uma ilusão que a gente espera!
(E as ilusões são como as serpentinas
que nos fogem da mão...) Falsa e insincera
hoje me lembras uma fora de hera
no muro branco de passado em ruínas!

Que fizeste do mundo de alegrias
que presenteei ao teu destino vago?
Dei-te a mancheias tudo que querias,
— palavra de honra que não merecias,
o sádico prazer com que me embriago...

Não mereces a dor que punge e espinha
nem esta carta viva de emoções!
Às vezes penso que nem foste minha
e que a minha alma louca, anda sozinha
num delírio de sombra e de visões!

É sempre assim. A mão destrói o sonho!
Toquei-te... E eras de pano, tola e fútil,
— ainda bem que te foste!... Hoje, tristonho
reduzi — com estes versos que componho —
a nossa história numa carta inútil...

Nunca esta carta te será bem-vinda
hás de soltá-la indiferente aos pés...
Confesso, quando a dor me fere ainda
que a Vida que sonhei e hoje está finda,
era grande demais... para quem és...

                                           J. G . de  Araujo Jorge

Do livro "Amo!", Editora Vecchi, 10ª ed. 1963, RJ


ALVORADA Eterna

 

ALVORADA Eterna



Quando formos os dois já bem velhinhos,
já bem cansados, trôpegos, vencidos,
um ao outro apoiados, nos caminhos,
depois de tantos sonhos percorridos...

Quando formos os dois já bem velhinhos
a lembrar tempos idos e vividos,
sem mais nada colher, nem mesmo espinhos
nos gestos desfolhados e pendidos...

Quando formos só os dois, já bem velhinhos,
lá onde findam todos os caminhos
e onde a saudade, o chão, de folhas junca...

Olha amor, os meus olhos, bem no fundo,
e hás de ver que este amor em que me inundo
é uma alvorada que não morre nunca!

sábado, 7 de agosto de 2021

O verbo amar

 O verbo amar


Te amei: era de longe que te olhava
e de longe me olhavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.

Te amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.

Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...

Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!

(Poema de JG de Araujo Jorge
do livro -Bazar de Ritmos- 1935)

Exaltação do amor

 Exaltação do amor


Sofro, bem sei... Mas se preciso fôr
sofrer mais, mal maior, extraordinário,
sofrerei tudo o quanto necessário
para a estrêla alcançar... colher a flor...

Que seja imenso o sofrimento, e vário!
Que eu tenha que lutar com força e ardor!
Como um louco talvez, ou um visionário
hei de alcançar o amor... com o meu Amor!

Nada me impedirá que seja meu
se é fogo que em meu peito se acendeu
e lavra, e cresce, e me consome o Ser...

Deus o pôs... Ninguém mais há de dispor!

Se êsse amor não puder ser meu viver
há de ser meu para eu morrer de Amor!

(Poema de JG de Araujo Jorge
do livro -Bazar de Ritmos- 1935)

Hoje estou triste

  Hoje estou triste Amor... Hoje estou triste... Nesses dias a vida de repente se reduz a um punhado de inúteis fantasias... ... Sou uma pro...