sexta-feira, 18 de março de 2022

" Estranho Instrumento "

 " Estranho Instrumento "


Meu coração, como uma harpa submersa,
jaz no fundo de que ignorado oceano?
Que estranhas correntes arrancam de suas cordas
sons líquidos e redondos que se perdem côncavos
antes de chegar à tona?...
Que peixes cegos tiram notas imprevistas
e se vão tontos na ondulação do canto que despertam
entre espectros calcários e verdes algas trementes?
Que músicas borbulhantes se agitam, nascidas
de que movimentos sem origens, incognoscíveis,
marcando um tempo morto e imensurável?
Meu coração é como uma harpa submersa,
sem dedos, sem cordas, tocando sozinha
uma canção que desvenda os mistérios da vida
para os peixes ouvirem.

( Poema de JG de Araujo Jorge  extraído
do livro " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

BOM DIA, AMIGO SOL



Bom dia, amigo Sol! A casa é tua!
As bandas da janela abre e escancara,
- deixa que entre a manhã sonora e clara
que anda lá fora alegre pela rua!

Entre! Vem surpreendê-la quase nua,
doura-lhe  as formas  de beleza rara...
Na intimidade em que a deixei, repara
Que a sua carne é branca como a Lua!

Bom dia, amigo Sol! É esse o meu ninho...
Que não repares no seu desalinho
nem  no ar  cheio de sombras, de cansaços...

Entra! Só tu possuis esse direito,
- de surpreendê-la, quente dos meus braços,
no aconchego feliz do nosso leito!...


( Poema de JG de Araujo Jorge extraído do livro
Eterno Motivo; -  Prêmio Raul de Leoni,
da Academia Carioca de Letras - 1943 )

sábado, 6 de novembro de 2021

Esta é uma manhã para ser feliz

 Esta é uma manhã para ser feliz

em um lugar, de algum modo,
é uma manhã para ser feliz...

Esta é uma manhã para dois, para dois juntos
abraçados e tontos, num remoinho
não como nós, eu aqui, diante do sol, das árvores,
de tudo envergonhado porque estou sozinho...

Esta é uma manhã que me fala de ti, nas nuvens,
na transparência do ar,
neste azul do céu, imaculado,
na beleza das coisas tocadas de sonho
e imaturidade...

Uma manhã de festa
para ser feliz de verdade!
Esta é uma manhã
para te Ter ao meu lado...

Quando Deus fez uma manhã como esta
estava com certeza apaixonado...

(Poema de JG de Araujo Jorge –
do livro - Espera- 1960)

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Esta Saudade

 Esta Saudade

Esta saudade és tu... E é toda feita
de ti, dos teus cabelos, dos teus olhos
que permanecem como estrelas vagas:
dos anseios de amor, coagulados.

Esta saudade és tu... É esse teu jeito
de pomba mansa nos meus braços quieta;
é a tua voz tecida de silêncio
nas palavras de amor que ainda sussurram...

Esta saudade são teus seios brancos;
tuas carícias que ainda estão comigo
deixando insones todos os sentidos.

Esta saudade és tu... é a tua falta
viva, em meu corpo, na minha alma, viva,
... enquanto eu morro no meu pensamento.

               



Razões...


Pensarás que é mentira e é no entanto verdade
— mas me afasto de ti, propositadamente,
pelo estranho prazer de sentir que a saudade
ainda torna maior o coração da gente...

Parto! Bem sei que parto sem necessidade!
Quero ver os teus olhos turvos, de repente,
embora não compreenda essa felicidade
que assim te faz sofrer comigo inutilmente!

Quero ouvir-te na hora da despedida
que eu volte bem depressa para a tua vida,
— quero no último beijo um soluço interior...

Que enquanto ficas só, e enquanto vou sozinho,
sabemos que a saudade vai tecendo o ninho
que há de aquecer na volta o nosso eterno amor!

Dedicatória

 Dedicatória


Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta cousa afinal na nossa história...
E este verso - é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...

Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!

Classicismo

 Classicismo

Longínquo descendente dos helenos
pelo espírito claro, a alma panteísta,
— amo a beleza esplêndida de Vênus
com uma alegria singular de artista!

Amo a aventura e o belo, amo a conquista!
Nem receio os traidores e os venenos...
— Trago na alma engastada uma ametista,
— meus olhos de esmeraldas são serenos!

Com os pés na terra tenho o olhar no céu;
a alma, pura e irrequieta como as linfas
soltas no chão; nos lábios, tenho mel...

Meu culto é a liberdade e a vida sã.
E ainda hoje sigo e persigo as ninfas
com a minha flauta mágica de Pã!

Cartas

 Cartas


Vou correndo buscá-las — são tão leves!
mas trazem a minha alma um grande encanto,
— por que as cartas que escreves custam tanto?
— por que demora tanto o que me escreves?

Não deves torturar-me assim, não deves!
— Do teu silêncio muita vez me espanto...
Mando-te longas cartas — e entretanto
como tuas respostas são tão breves!...

Recebes cartas minhas todo dia,
e elas não dizem tudo o que eu queria
mas falam-te de amor... de coisas belas!

Tuas cartas... Mas dou-te o meu perdão,
— que me importa afinal eu ter razão,
se gosto tanto de esperar por elas!

Do livro "Bazar de Ritmos", Editora Vecchi, 6 ª ed. 1963, RJ


Carta Inútil

Tu não mereces o meu sofrimento
ele é grande demais para quem és,
nem devia afinal (triste momento),
— por fraqueza humilhar meu sentimento,
e ajoelhar-me adorando-te aos teus pés...

Passaste tão depressa!... Em minha vida
às vezes penso que nem foste minha!
Como a aragem soprando distraída
acendeste uma brasa adormecida
e deixaste-a queimar-se após, sozinha...

Minha angústia interior é aquela chama
vermelha, consumindo a brasa acesa...
A Vida é assim... bem sei... sofre quem ama,
e, covarde, é o mundo, o que reclama
contra um quinhão de dor e de tristeza!

Ainda guardo a silhueta de teu vulto
e o que ontem me dizias sei de cor,
— por tudo o que mentiste não te insulto,
fiz das lembranças que deixaste um culto
e a vida sem lembranças... ainda é pior...

Quase sempre é melhor o sofrimento
quando ele encerra uma lembrança boa,
que uma vida vazia, o isolamento,
— sem uma voz trazida pelo vento!
— sem um vulto passando na garoa!

Doloroso é voltarmos nosso rosto
e o passado fugir como um caminho
deserto, a essa hora roxa do sol posto,
— sem um riso, uma lágrima um desgosto
a saudade de um beijo ou de um carinho...

Quando o mal terminou, já está curado,
mesmo a sombra da dor ainda conforta...
— bem pior, é não ser ter nunca chorado,
vendo o mundo a passar sem ter passado
e a vida inteira inutilmente morta!

Confesso, sim... que não mereces tanto
não mereces um culto igual ao meu...
Tudo em ti foi tão falso... hoje, me espanto
ao ver que tantas vezes o teu pranto
numa ironia cruel me comoveu...

Mas, não toquemos nisso... Não se deve
falar de um mal que nos maltrata assim,
— nem sempre o que se pensa a gente escreve...
— que o esquecimento seja um véu de neve
descendo suave sobre o nosso fim...

Teu amor foi apenas uma nuance,
desmaio de um segundo nos meus braços,
— é inútil que ainda insista e ainda me canse
a procurar em vão nesse ex-romance
a falsa trajetória de teus passos...

Foste um lírico instante de beleza
a efêmera existência de uma flor!
Uma folha a rolar na correnteza,
um segundo de anseio e de incerteza,
— mentira ingênua que eu chamei de amor!

Gota d'água brilhante ainda em suspenso
num fio... quando o sol quente a encontrou,
— partida que não teve o adeus de um lenço,
história antiga que não tem mais senso,
livro que o vento sem querer fechou...

Foste isso: uma ilusão que a gente espera!
(E as ilusões são como as serpentinas
que nos fogem da mão...) Falsa e insincera
hoje me lembras uma fora de hera
no muro branco de passado em ruínas!

Que fizeste do mundo de alegrias
que presenteei ao teu destino vago?
Dei-te a mancheias tudo que querias,
— palavra de honra que não merecias,
o sádico prazer com que me embriago...

Não mereces a dor que punge e espinha
nem esta carta viva de emoções!
Às vezes penso que nem foste minha
e que a minha alma louca, anda sozinha
num delírio de sombra e de visões!

É sempre assim. A mão destrói o sonho!
Toquei-te... E eras de pano, tola e fútil,
— ainda bem que te foste!... Hoje, tristonho
reduzi — com estes versos que componho —
a nossa história numa carta inútil...

Nunca esta carta te será bem-vinda
hás de soltá-la indiferente aos pés...
Confesso, quando a dor me fere ainda
que a Vida que sonhei e hoje está finda,
era grande demais... para quem és...

                                           J. G . de  Araujo Jorge

Do livro "Amo!", Editora Vecchi, 10ª ed. 1963, RJ


Hoje estou triste

  Hoje estou triste Amor... Hoje estou triste... Nesses dias a vida de repente se reduz a um punhado de inúteis fantasias... ... Sou uma pro...