quinta-feira, 29 de julho de 2021

Razões de Amor... II

 Razões de Amor... II 


Gosto de ti desesperadamente:
dos teus cabelos de tarde onde mergulho o rosto,
dos teus olhos de remanso onde me morro e descanso;
dos teus seios de ambrósias, brancos manjares trementes
com dois vermelhos morangos para as minhas alegrias;

de teu ventre - uma enseada - porto sem cais e sem mar -
branca areia à espera da onda que em vaivém vai se espraiar;
de teu quadris, instrumento de tantas curvas, convexo,
de tuas coxas que lembram as brancas asas do sexo;

- do teu corpo só de alvuras - das infinitas ternuras
de tuas mãos, que são ninhos de aconchegos e carinhos,
mãos angorás, que parecem que só de carícias tecem
esses desejos da gente...

Gosto de ti desesperadamente;
gosto de ti, toda, inteira nua, nua, bela, bela,
dos teus cabelos de tarde aos teus pés de Cinderela,
(há dois pássaros inquietos em teus pequeninos pés)
- gosto de ti, feiticeira, tal como tu és...

" Ameaça "

  " Ameaça "



Os teus olhos estão cheios de umidade
meus olhos sentem frio quando encontram os teus...

Se aperto tua mão, sinto-a muda, distraída
como se estivesse sozinha,
-ah! Nunca pudeste compreender
a íntima razão por que os meus dedos trêmulos
procuram demorá-la um pouco mais na minha!

Os teus lábios me falam de amor
como se tratassem
de algum tema banal sem emoção, nem cor...
Por isso, não compreendes que os meus lábios tratem
de um tema banal qualquer
te falando de amor!

As vezes, receio
que a tua indiferença mate o meu orgulho
e a paixão que domino a custo, se liberte
louca!
-e eu te tome em meus braços como alucinado
e deixando o amor-próprio ferido de lado
numa febre cruel machuque a tua boca!

Não importa, depois, que te revoltes
e até me esbofeteies!
Prefiro esse ódio, sim, eu quero que me odeies!
Quero que ao me encontrares, os teus olhos brilhem
mais, ardendo contra mim
de indignação!

Quero tudo de ti! Não quero indiferença
que me castiga assim, e é martírio
e é doença
e faz da minha angústia uma alucinação

E guarda o que te digo
neste instante:

-eu nasci para ser teu inimigo
ou teu amante
mas nunca um teu amigo
ou teu irmão!

Está, pois, como vês, nas tuas mãos
escolher
o que queres que eu seja
ou o que terei de ser!


 
( Poema de J. G . de  Araujo Jorge
do livro " AMO ! " -  1938 ) 

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"Alegria!"

 "Alegria!"


Há alegria no sol que num triunfal rompante
como um broto de luz que rompesse as entranhas
da terra, - surge além pelas sombras, distante,
a incendiar como um louco a encosta das montanhas!

Há alegria  no mar onde as conchas apanhas!
Na noite mansa e azul, silenciosa e brilhante,
e nas nuvens que no ar tomam formas estranhas,
nas mãos ágeis do vento irrequieto e inconstante!

Há alegria nas ruas, nas flores, - nas aves
que enchem ramos e céus de melodias suaves,
e em meus olhos tristonhos refletindo os teus...

Alegria não há, no entanto, mais completa
que essa que canta e ri no coração de um Poeta
quando ao findar de um poema se imagina Deus!



( Poema de J. G. de Araujo Jorge, extraído
do livro " AMO ! " - 1a edição - 1938 )

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A Vida

  A  Vida  "


  
I
"...Mudarás, todos mudam, e os espinhos
com surpresa verás por todo lado,
- são assim nesta vida os seus caminhos
desde que o homem no mundo tem andado...

Não hás de ser o eterno namorado
com as mãos e os lábios cheios de carinho,
- hoje, juntos os dois... tudo encantado!
- amanhã, tudo triste... os dois sozinhos!...

E sentindo o teu braço então vazio,
abatido verás que não resistes
à inclemência do tempo úmido e frio!

Rolarás por escarpas e barrancos:
sobre o epitáfio dos teus olhos tristes
trazendo a campa dos cabelos brancos!"

I I

" . . Tem sido assim e assim será... Mais tarde
o que hoje pensas chamarás: - quimera!
E esse esplendor que nos teus olhos arde,
será a visão de extinta primavera...

Escondido à .traição, como uma fera,
bem em silêncio, e sem fazer alarde,
o Destino que é mau e que é covarde,
naquela sombra adiante já te espera!   

E num requinte de perversidade
faz de cada ilusão, de cada sonho,
a ruína de uma dor... e uma saudade...

E se voltares, notarás então
desesperado, ao teu olhar tristonho
que em vão sonhaste... e que viveste em vão!..."

I I I
"... A vida é assim, segue e verás, - a vida
é um dia de esperança, um longo poente
de incertezas cruéis, e finalmente
a grande noite estranha e dolorida...

Hoje o sol, hoje a luz, hoje contente
a estrada a percorrer suave e florida...
- amanhã, pela sombra, inutilmente
outra sombra a vagar, triste e perdida...

A vida é assim, é um dia de esperança
uma réstia de luz entre dois ramos
que a noite envolve cedo, sem tardança...

E enquanto as sombras chegam, nós, ao vê-las,
ainda somos felizes e encontramos
a saudade infinita das estrelas!..."

IV
"...A vida é assim, uma ânsia... feito a vaga
que se ergue e rola a espumejar na areia,
- apor esse bem que a tua mão semeia
espera o mal que ainda terás por paga!

A essa hora boa que te agrada e enleia
sucede uma outra torturante e aziaga,
- a vida é assim... um canto de sereia
que à morte nos convida, e nos afaga...

O teu sonho melhor bem pouco dura,
e há sempre "um amanhã" cheio de dor
para "um hoje" nem sempre de ventura...

Toma entre as mãos o búzio da alegria
e surpreso verás que no interior
canta profunda e imensa nostalgia!..."

V
Isso tudo nos dizem, - entretanto
nós dois seguimos braços dados,
creio que se tu sabes que te adore tanto
do que ouviste talvez não tens receio...

A vida, - é o nosso amor, o nosso encanto!
Nem a podemos mais parar no meio...
Chorar? - bem sei que choras, mas teu pranto
é a alegria que canta no teu seio...

O mundo é bom e nós o cremos, basta!
E se um amor tão grande nos enleva
e pela vida unidos nos arrasta,

- que eu te abrace e te apoies sempre em mim,
e desafiando o mundo envolto em treva
sigamos juntos para um mesmo fim !
    

(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro " AMO ! " 1a edição 1938 )

A Lenda do Poente

 " A Lenda do Poente "


  I
   O Dia
Velho senhor branco
sai de manhãzinha dos braços da escrava negra
e vai se vingar de sua fraqueza e de sua inferioridade
nem bem pulou do leito,
castigando com o chicote de fogo do Sol
o dorso negro dos irmãos da escrava negra, no eito!

Mas o ódio da Noite
e o fastio da Noite, a sua escrava negra,
vão morrendo,
e o desejo vai voltando... renascendo....

E quando à tarde, de novo, o dia, velho senhor branco,
vê a Noite, a sua escrava negra,
saindo do banho
com duas gotas brilhantes como estrelas
no bico dos seios,
e duas estrelas como gotas faiscantes
no olhar,
o Dia, velho senhor branco,
quer se deitar...

E então, a correr para a Noite que sobe e tropeça
nas montanhas, além,
o Dia, velho senhor branco,
a enlaçar o seu corpo tropeça também
e cai!...
....

E o poente é um: ai !

I I
O Dia
Velho senhor branco
chamou a Noite a sua escrava negra
e possuiu-a sobre o leito duro da senzala
das montanhas...

O Dia
Velho senhor mau
na carne rija e negra da Noite sua escrava
tatuou com a ponta de fogo das estrelas
o seu sinal de posse !

Desde esse dia
quando o senhor branco chama a Noite, a sua escrava,
a negra vem vindo
vem vindo
humildemente,
fica logo toda nua, vai logo se despindo
e se deita sobre as montanhas para a posse do Sol !

E a negra cerra as pálpebras negras de longos cílios negros
e abraça o corpo do senhor branco com seus braços negros
e na hora do êxtase do poente
recebe de repente,
a fecundação luminosa dos astros
no espasmo das nebulosas !
..............................................................

O senhor branco nunca pode compreender
aquela estrela brilhante
muito brilhante
da madrugada,
que deixou nos olhos embaciados da escrava negra
como uma lágrima
parada...



(Poema de JG de Araujo Jorge extraído
do livro " AMO ! " 1a edição 1938 )


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Oito Poemetos

 

Oito Poemetos

 

 

Alegria

Há um canto de pássaros no raio de luz
que pousou na janela.



Brinde


Sirvamos na taça

a palavra e a música



Canto


Um pássaro pousou na palavra e deu asas

ao coração...



Carícia


Foram tuas mãos... ou apenas o sol que saiu de uma nuvem

para tocar-me...



Esperança


A face impassível e lúcida do espelho

ainda se turva...



Inquietação


Não são as ondas, não são os ventos...

Nos rios subterrâneos de meu sangue

há velas brancas, desesperadas...



Pessimismo


Há estrelas no céu, há vermes na terra,

há algas no mar...

Só eu nasci homem...



Sensual


Eram dois bicos, como dois bicos de aves,

só que tremiam sob o teu vestido...


 

Oh! Não será isto a alegria?

 

Oh! Não será isto a alegria?


Numa hora calma, sentar-se a sós, tomar um livro de páginas fechadas
cujo conteúdo pressentimos, pelo autor, nosso velho conhecido,
e abrirmos página por página, levantando aqui e ali
sem nos contermos, curiosos, uma palavra, como um véu sobre a beleza ignorada,
a beleza que desponta, como o sol que irradia.

Oh! não será isto a alegria?

Receber uma carta, uma carta simples, de uma desconhecida

num, domingo de manhã, e antes do jornal, abri-la conjecturando,
e encontrar uma alma irmã, ardente e solitária
que nos faz confidências e amplia nossos limites
numa imprevista harmonia.

Oh! não será isto a alegria?

Esperar alguma noite, um amigo que não perturbará a nossa intimidade
que beberá conosco o mesmo vinho, ouvirá a mesma música
cuja cadeira o destino colocou ao nosso lado na mesma mesa do passado
com quem partilharemos nossos planos e nossas esperanças
e a quem gostaríamos de chamar de irmão
numa hora de Paz ou de agonia...

Oh! não será isto a alegria?

Despertar sobressaltado, voltar o rosto e encontrar
ao seu lado, sereno e confiante, o rosto da companheira que dorme,
pousar nossa mão sobre a sua, e adormecer sem remorsos
numa profunda poesia..

Oh! não será isto a alegria?

Trazer o corpo vencido, os nervos doídos, exaustos,
e aberta a porta, encontrar as coisas nos mesmos lugares:
nossa cama, a nossa mesa, os nossos livros, a nossa companheira,
tudo no mesmo lugar, em paz, fielmente à nossa espera
todo dia...

Oh! não será isto a alegria?

Manhã clara de primavera, calção de banho, o sol no peito,
sem dívidas e pecados, invejas ou remorsos,
encher de ar os pulmões diante da praia iluminada,
e atirarmo-nos de encontro às ondas e nadar contra o horizonte
de um novo dia. . .

Oh! não será isto a alegria?


 

Hoje estou triste

  Hoje estou triste Amor... Hoje estou triste... Nesses dias a vida de repente se reduz a um punhado de inúteis fantasias... ... Sou uma pro...